sexta-feira, julho 23, 2010

Noite de Nossas Vígilias



Imagem: DevianArt



O bom seria saber dizer todas as coisas. Como se faz nos livros e nos filmes. Script cheio de palavras certas e todas claras na hora exata. Eu queria saber dizer todas as coisas bonitas que vejo por ai. Que troco o dia pela noite. Que observo o mundo por trás de uns óculos escuros pra enganar a mulher enxerida que sou diante dos fatos. Que ouço Debussy, vou ao supermercado, academia, penso num namorado que ainda não conheço e escrevo invencionices porque em mim ainda há altas doses de lirismo e ficcionismo que me fazem reinventar um mundo ou fugir de tudo pra sempre. E eu devia ser mantida em cativeiro por pensar em sexo mais do que devia e por falar de amor até ás três da manhã. Se eu soubesse como dizer, hoje eu falaria de tudo. Sem medo. Sabe aquelas coisas que se fala antes de morrer? E passaria o dia á Deus dará, sem pensar em nada só pra pensar em você. Passaria o dia pensando em nossas imagens no espelho e pensaria também na gente pelas ruas, de mãos dadas, ou fazendo tudo com capricho pra nunca fazer o outro sofrer. Por muito tempo, tanto que já perdi a conta, fui sozinha imperando meus estados. Fui aquela coisa caótica de pós-modernista, cobiçada em sala de aula, bajulada por nobres poetas que deixavam versos em qualquer ponta de esquina e odiada pelas mulheres em banheiro feminino. Até você chegar, com a violência causada do querer. Parece que falta ar. Parece até o fim do mundo esse seu querer desesperado que grita quase num lamento ou prece sussurrada em lábios que come beijo. Parece mesmo que me perdi e só me encontro quando você chega, come, bebe, investiga as fechaduras e me lambe as coxas pra rir da minha cara sem vergonha depois. É veja como eu fico. O amor é mesmo uma coisa de doido. Tiro minha calcinha e fico ali anestesiada esperando calada para dar tempo de você alcançar meu ritmo e, quando percebemos, somos dois sendo nada e sendo tudo. E que inveja sentem nossos vizinhos quando o mundo dorme e nos cobiçamos. O mundo dorme e meus gemidos é a orquestra da nossa casa. Toda madrugada ainda é pouco, não sacia e come mais que a fome de nossas vigílias.


Por Tâmara Lopes

6 comentários:

Í.ta** disse...

que baita ficção! adorei o ritmo com que ela envolve o leitor.

Flávia disse...

É bom não saber dizer tudo. Às vezes, o que faz diferença, toda a diferença, é justamente o indizível. Como a sensação que se tem ao ler o que você escreveu.

Um beijo.

Hod disse...

Se reconhece um bom trabalho quando se lê ou vê!!

Bom fim de semana.

Abraços.

PULCRO disse...

Fiquei preso nesse texto.
Liberdade!

Anônimo disse...

Delícia.

Humanos Hedonistas disse...

Essa nega é fogo na ropupa, como diria meu avô.

Bjoooo

Lini