Pupilas dilatadas,
alguém disse alto. Eu ouvi do quintal. Não entendi muito bem, pensei em drogas
ilícitas. Mas isso era amor, o êxtase da paixão, o olhar sob o olhar do objeto
de desejo que não o desejava. Senti o cheiro do cigarro de longe, agora sim, e vi
uma pontinha de luz em meio aquele breu apocalíptico que pairou sobre a
situação, sentei ao seu lado e a nossa conversa era apenas o diálogo de nossas
respirações. A sua, calma, em contraste com a minha ofegante.
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quinta-feira, setembro 01, 2016
domingo, maio 08, 2016
Um gosto remoto das pitangas
No mesmo momento que os acordes
do piano começaram a se repetir frenéticos, sem medo algum nossas bocas abertas
se procuraram. Houve nas línguas um gosto remoto das pitangas que colhíamos no
caminho para o rio, depois o fresco abraço das águas envolvendo nossos membros,
as gotas das lágrimas que eu bebia uma por uma ganhando lentas o mesmo gosto
claro das pedras mergulhadas na sombra, poças de sol entre as quais brotava vez
que outra uma descuidada flor amarela onde pousavam borboletas, essas de asas
azuis transparentes, debruadas de ouro, então emergiríamos da água doce
abençoados por ninfas e devas pisando descalços na terra quente de sol para
subir a encosta cheia de espinhos até a cerca de arame farpado separando o
abismo do caminho cercado de hibiscos que conduzia à casa de portas e janelas
todos os dias escancaradas, porque era para sempre verão, em torno da qual
nunca houvera nem haveria cães furiosos, latidos transformados nesse gosto
vermelho de pitangas, salivas misturadas, quase negras de tão maduras. Quis
dizer a ele que voltariam as manhãs, ainda mais claras agora que estávamos
juntos, voltariam sim as claridades, o calor das tardes sobre a terra coberta
de verde e também os crepúsculos de nuvens roxas e rosadas colorindo o cume dos
montes, e mais tarde as noites embaladas por flautas, cetins, brisas com cheiro
de mato varando as frestas das vidraças, se não para sempre, acho que disse,
por muito tempo, por tanto tempo, tão longo, tão fundo, que será como para
sempre, Ricardo, como se finalmente disparasse minha seta incendiada em direção
às estrelas, trazendo-te junto comigo, porque brilharemos ambos de fogo, mais
que o teu sol, a caminho dos meus inúmeros satélites girando no infinito.
Caio Fernando Abreu – Triângulo das
águas
segunda-feira, julho 06, 2015
domingo, abril 26, 2015
sexta-feira, julho 25, 2014
Convicção
É muito cedo para imaginar se estou satisfeito com o que
construí de mim mesmo e tarde demais para ter aquela sensação de plena certeza.
A sorte da convicção vem do imperfeito e cabe um mar de amor
no céu da boca.
terça-feira, junho 24, 2014
Receita
Captando
sua sensibilidade em toques
Deixando
digitais no seu corpo
Encostando
a língua no lóbulo da sua orelha
Entregando
meus beijos
Friccionando
minha anatomia à sua, nos encaixando...
quarta-feira, maio 14, 2014
Coração
Bicha devia nascer
sem coração. É, devia nascer. Oca. É, feito uma porta. Ai, ai. Não sei se quero
chá ou café. Não sei. Meus nervos à flor de algodão. Acendo um cigarro e vou
assistir televisão. Televisão. O especial de Roberto Carlos todo ano. Ai, que
amolação! Esse coração de merda. Bicha devia nascer vazia. Dentro do peito, um
peru da Sadia. É, devia.
Célio conheceu Beto
na estação de trem, em setembro. Moreno bonito. Célio acariciou o membro de
Beto no aperto vespertino, no balanço ferroviário. Beto gozou na mão do viado.
Encabulado, mascou seu chiclete, desceu e nem olhou para trás, para Célio.
Célio feliz por um certo tempo. A gosma entre os dedos. A porra a gente esconde
no ferro, debaixo do banco.
Depois encontrei com
ele de novo. Oi, oi. Perguntou se eu tinha um cigarro, se morava na XV de
novembro. Se eu trabalhava, de quê trabalhava, essas coisas. Se ele podia me
acompanhar até em casa. E você? Deixei, deixei. Eu não tenho medo. Se for
ladrão, não tem o que levar. E ele parecia, sei lá, um menino bom. Bafão, mona.
Abra a janela que eu estou ficando tonta.
Era feriado de 7 de
setembro. O povo descendo cariado, passando catracas, barracas. Célio se
sentindo…
A dona do puto.
… na companhia de
Beto, que vestia camiseta branca, calça bege, meio jegue, de peito
cabeludo.
- Chegamos.
Havia cacharolas
cinzas no fogão, pratos, ossos e esponja. No quartinho, colchas coloridas.
Conquista de
território.
Aí o bofe tomou um
ki-suco de morango, comeu um omelete, conversou pouco e nada. Não rolou nada
aquele dia, acredita? Ele travou, não sei. Não-me-toque, eu não toquei. E assim
a gente ficou. Ele saiu chupando um chiclete de uva-maça-verde. Eu amarelei.
Depois disso, quem
disse que Célio se concentrou nos seus desenhos? Fazia moda verão, inverno,
jaquetas e turbantes. E pensava na boca do Beto, no desodorante. No dia em que
ele gozasse no seu travesseiro de cetim. Ai, ai de mim. Procurou o moreno em
todos os vagões. Não esqueceu nenhum.
A pior coisa, amiga,
é uma trepada quando fica engasgada. Vira uma lembrança agoniada. Uh!
Encontrou Beto uma
semana depois. Na mesma hora em que estava masturbando outro, desiludido e oco.
Um loiro que nem chegava aos pés do moreno misterioso. Epa! Correu e disse
alguma coisa: algo como “Omelete recheado”. Vamos de novo?
Foram e chegaram.
No quartinho,
colchas coloridas. Conquista de território, nunca se sabe. O mundo é cheio de
voltas desconfortáveis. Mas de hoje não passa.
Ai o bofe tomou
ki-suco e comeu omelete. Tinha bolo Souza Leão. Foi quando ele perguntou se
podia dormir comigo aquela noite. Claro que sim, se não! O rádio-relógio
tocando Maria Bethânia, as canções que você fez para mim. Eu não tive dúvida.
Fui tirando a roupa do bofe. Uau! Menina! Bicha devia nascer sem coração,
tô te falando.
Quando acordou,
depois de tanto prazer, cadê o amor? O menino saiu, na madrugada. Evaporou-se.
Como? Célio viu se tudo na casa estava em ordem. As caçarolas intactas, os
ossos continuavam à mostra. Ora, que menino mais capeta! Só sobrou o chiclete,
acredita?
Ai, ai. Mesmo assim,
cheio de formiga.
Cheguei atrasado na
confecção, na terça. Não quis almoço, não fiz marmita. Lá fui eu de novo atrás
do bofe. Como uma anta perdida. Não tem coisa pior do que o abandono. Depois de
uma trepada daquela, tudo parecia ser eterno. Aí é que a gente se engana.
Nada, mona.
No lugar do coração,
bicha devia ter uma bomba. A minha vontade era ter uma granada, para estourar
no trem. Para fazer uma desgraça, juro. Só assim, Deus vai olhar para mim. Vai
me trazer de volta aquele anjo. Sim, porque era um anjo. Não me roubou. Não me
bateu. Sabe o que ele me falou? Que queria ser corredor de Fórmula-1. Vai ver
foi isso. Zummmmm.
Até hoje, nem
sombra. Célio não quis saber de outro cara. Mesmo que alguns só faltassem
esfregar o pau na sua…
Você me respeite.
Tem um, lá no Brás,
que vive convidando o Célio para ir ao parque. Para comer tapioca com creme de
leite. Naquele Natal, até ganhou do cara um peru da Sadia, um vinho…
Não agüentei ficar
em casa, sozinho, e vim tomar um café com você. Essa bosta de tristeza que
bate no coração da gente, de repente. Que desmantelo! Bem que Roberto
Carlos podia cortar esse cabelo. E eu, nascer sem coração, repetiu. É, sem
coração.
Para não ter que
ouvir essa canção.
Marcelino Freire
Livro de
Contos: Contos Negreiros
terça-feira, abril 15, 2014
Jorge e Lucas
(desenho de Luiza Veras)
Jorge e Lucas eram
amigos da faculdade, saiam no final de semana para pegar garotas bêbadas em
festas e competiam quem beijava mais. Foi depois de muita tequila que Lucas
confessou sua atração pelo amigo e foi depois de muito vinho que Jorge contou à
família que namorava seu melhor amigo.
Jorge e Lucas completam 2 anos de namoro semana que vem.
Jorge e Lucas completam 2 anos de namoro semana que vem.
Da página: Desenhosóbvios por pessoas clichês
segunda-feira, abril 07, 2014
domingo, março 30, 2014
E se...
”E se eu te disser
que eu quero aprender a me
Amar e te amar também
ao mesmo tempo?
Você teria tempo?”
(Inalcançável você, Leo Cavalcanti)
quarta-feira, março 26, 2014
03 anos
Para Daniel
Eu
te chamo dia, pois amanheceu assim, para mim. Trouxe consigo a beleza que me
faltava. E se navego nos seus olhos, me perco no mar fascinante, nesse castanho
celestial. Das noites sonhadas em vão, que lembranças não quero sentir mais. Ele
veio e trouxe a magia, nosso sono é quase um transe e não preciso ter medo de
fantasmas perdidos... Respiramos juntos, astutos. Batidas ritmadas dos nossos
corações alvoroçados formam a trilha sonora favorita para o repouso no peito do
meu amor. Como uma redoma capaz de me proteger dos perigos de ontem, eu
sustento nas pontas dos dedos as sensações doces que emanam quando estamos
juntos. Eu beijo na ponta do nariz, e
faço votos que essa paz nunca termine. Espero acordar e me deparar com um
sorriso junto ao meu. E eu nunca pensei que estar aberto às inclinações
mundanas fosse tão interessante. Assistir o relógio passar de maneira
desenfreada e não poder fazer absolutamente nada, pois me inspiro nas
eternidades que duram pouco mais que meia hora... Bons dia, paixão!
segunda-feira, março 03, 2014
sexta-feira, fevereiro 21, 2014
Segredo
Você
nunca vai saber que eu te segui com os olhos, aprendi o seu caminho, fiquei de
tocaia e sequestrei seu coração.
quarta-feira, fevereiro 19, 2014
Sempre assim
Acho que vai ser sempre assim: você repousa em meus braços
buscando abrigo e eu me abrigo em seus braços buscando repouso.
sábado, fevereiro 15, 2014
Outro
Você nem vai me reconhecer
Quando eu passar por você
De cara alegre e cruel
Feliz e mau como um pau duro
Acendendo-se no escuro
(Caetano Veloso)
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